Negros Notáveis – Emanuel Messias Alves de lima https://cantandohistoria.com My WordPress Blog Fri, 26 Sep 2025 23:42:34 +0000 pt-BR hourly 1 https://wordpress.org/?v=6.8.3 Nilo Peçanha – O presidente Negro https://cantandohistoria.com/2025/09/26/nilo-pecanha/ https://cantandohistoria.com/2025/09/26/nilo-pecanha/#respond Fri, 26 Sep 2025 23:42:34 +0000 http://localhost/wordpress/?p=20 Ter sido o primeiro e, até a data em que escrevo, o único presidente negro do Brasil, além de ainda ter conseguido influenciar a população a eleger seu candidato preferido nas eleições seguintes são alguns dos feitos de Nilo Peçanha. Um herói que os livros esquecem.

Além disso, com apenas três meses de governo, implementou as escolas técnicas federais, dando oportunidade de obter uma profissão a todos, inclusive aos negros recém-libertos que, até então, não tinham acesso à educação e profissionalização.

Mas o que faz de Nilo Peçanha um Herói?

Finalmente, o que realmente faz de Nilo Peçanha um herói é sua trajetória de vida! Nasceu pobre e preto. E nascer pobre e preto em 1867 significava que sua vida provavelmente seria difícil, muito difícil. Morava em um sítio, num morro do Rio de Janeiro. Mas teve a felicidade de mudar para a cidade quando atingiu idade escolar.

Resumo

Teve oportunidades que muitos outros não tiveram, sendo brancos ou pretos. Pôde estudar e teve uma base familiar. Mas isso não é desculpa.

Obs.: Vou pular a fase em que estudou direito e outras coisas para não ficar chato.

Conheceu e casou com Ana de Castro, de origem rica de Campos dos Goytacazes.

Mas não pense que deu o golpe do baú. Ao contrário, a rica moça virou pobre moça ao fugir para casar com Nilo.

Nessa época, ele já era um político promissor, mas para a família de sua esposa e para boa parte da imprensa, o fato de uma jovem de família aristocrática e rica casar-se com um “mulato”, como resolveram adjetivá-lo pejorativamente, era um escândalo. Em charges e anedotas, foi ridicularizado por parte da imprensa que focava em diminuí-lo por sua cor de pele. E chamado de “O mestiço do morro” pela elite de Campos dos Goytacazes.

Nada disso diminuiu a bravura de nosso personagem. Talvez, ao contrário, tenha fortalecido suas convicções.

Abolicionista

Eventualmente participou de campanhas abolicionistas republicanas. Foi eleito para a assembleia constituinte. Depois, eleito senador, posteriormente à presidência do estado do Rio de Janeiro (equivalente a governador).

Posteriormente foi eleito vice-presidente da república em 1906, se tornaria presidente de 1909 a 1910.

Fez um bom governo. Criou o serviço de proteção aos índios e a primeira escola técnica do Brasil. Nilo Peçanha hoje é o patrono da educação profissional e tecnológica no Brasil, através da Lei 12.417/2011, que oficializou a homenagem em 2011.

Em 1920, Portugal o agraciou com a Grã-Cruz da Ordem Militar de Sant’Iago da Espada.

Obs. 2: Parece que os portugueses valorizam mais nossos heróis do que nós mesmos.

Resumindo esse resumo e dando pitaco:

Outros presidentes tiveram descendência africana, mas o único de pele escura foi Nilo Peçanha.

Apesar de ter quase tudo contra, Nilo Peçanha não se fez de vítima. Venceu na vida por seus méritos e inteligência.

Sim. Tivemos um presidente negro, ou pardo. E por algum motivo, raramente se fala disso.

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Machado de Assis https://cantandohistoria.com/2025/09/26/machado/ https://cantandohistoria.com/2025/09/26/machado/#respond Fri, 26 Sep 2025 23:13:11 +0000 http://localhost/wordpress/?p=18 Machado de Assis não guerreou, mas heróis estão por aí. Fazendo história.

Herói

Herói: indivíduo notabilizado por suas realizações, seus feitos guerreiros, coragem, abnegação, magnanimidade. Esta é a definição no dicionário de Oxford.

Leia com atenção:

Herói: indivíduo notabilizado por suas realizações.

Herói: Realizações.

Não se trata de qualquer escritor, trata-se do autodidata, fundador da Academia Brasileira de Letras, mulato… Machado de Assis. Mulato, sim. E por mais que eu não goste de me referir a pessoas pela cor, etnia, ou qualquer coisa além de ser humano ou pessoa, neste caso, é necessário dizer que era mulato. Pois isso seria um empecilho, não fosse a grandiosidade do nosso personagem.

Negro sim, Vitima nunca!

Mesmo sem uma educação formal, nascido em 1839, não era de se esperar que se tornasse um dos maiores e melhores escritores do país. Vivendo no Rio de Janeiro, que era a capital do império, o que não quer dizer que era agradável. Enfim era um lugar sem energia elétrica, a cidade era habitada por imigrantes europeus, africanos, mestiços e escravos. O morro do Livramento, onde Assis morava, era pobre. Nas ruas estreitas e movimentadas, havia lampiões de azeite de peixe que iluminavam a noite.

Desde cedo, Machado enfrenta dificuldades que desmotivariam muitos outros. Apesar de ser filho de um pintor de paredes e de uma lavadeira, de ter perdido a mãe muito jovem e ser criado por uma madrasta numa situação financeira precária, a família não permitiria que frequentasse uma escola formal. Então busca educação por conta própria, lendo livros que consegue pegar emprestado.

Logo depois de completar 14 anos, publica o primeiro trabalho literário, o soneto “À Ilma. Sra. D.P.J.A.”, no Periódico dos Pobres, número datado de 3 de outubro de 1854.

Apesar de tudo, em sua vida, escreveu romances, sonetos, artigos sobre teatro, peças teatrais, entre outras obras. Seus romances, como “Memórias Póstumas de Brás Cubas” e “Dom Casmurro”, são considerados obras-primas da literatura brasileira e revelam uma profunda compreensão da natureza humana e das complexidades sociais.

Frequentemente, Machado de Assis defendia o fim da escravidão, não aceitava essa situação, mesmo nunca tendo sido escravo. Todas as vezes que podia, diferente da política de libertação adotada pelo império, defendia uma preparação para a vida pós libertação.

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Luís Gama https://cantandohistoria.com/2025/09/26/luis-gama/ https://cantandohistoria.com/2025/09/26/luis-gama/#respond Fri, 26 Sep 2025 05:33:07 +0000 http://localhost/wordpress/?p=11

Luís Gama teve uma longa caminhada das praias do litoral sul de São Paulo a Capital, numa fila de homens, mulheres e crianças.

Alguns acorrentados e outros, já mansos, apenas seguindo comandos, como cachorros domesticados que seguem seus donos a qualquer lugar deixando ou não um rastro pelo caminho e comendo as migalhas que caem ao chão, aguardando o momento que ficarão totalmente gratos e satisfeitos com uma porção de ração ou pedaço de algum alimento que não agradaria urubus.

Mais alguns quilômetros

Mais alguns quilômetros, é o pensamento na mente dos acorrentados – só mais alguns infindáveis quilômetros…

Mas o sofrimento não chegará ao fim, o fim da caminhada não significa alegria, significa o começo de algum trabalho que esses homens, mulheres e crianças não desejam fazer.

Infindáveis quilômetros adiante, a fila chega à metrópole. Se bem que não deveria chamar de metrópole, São Paulo à época não era mais que um vilarejo subdesenvolvido. Um retrato mal desenhado de cidades Portuguesas subdesenvolvidas. Uma cidade em transformação, em crescimento, mas com ruas de terra, poucas construções de alvenaria habitadas por colonos europeus. Predominantemente agrária, a cidade precisava desses novos habitantes que vinham em filas para seus novos trabalhos indesejados.

Pés calejados, rostos chorosos, rostos inexpressivos, rostos cansados. Alguns indignados, é claro. Mas o adestramento chegaria também para esses. Diferente dos indígenas esses negros formariam uma boa frente de trabalho para o cultivo do café que se solidificava e transformava a cidade.

Era um mal necessário.

Até a proibição do tráfico de escravos, em 1.850, a maior parte da mão de obra vinha da Guiné e Angola. Navios negreiros transportavam os cativos comprados na África. Pessoas com destino definido enfrentavam trabalhos forçados, provavelmente separados de suas famílias e subjugados onde quer que fossem. As guerras africanas, assim como qualquer guerra à época, rendiam riquezas e mão de obra barata aos vencedores. Aos perdedores, cabia a dor.

A Lei do Ventre Livre, promulgada apenas em 1.871. Antes disso, além de os viajantes terem como destino a subserviência, seus filhos teriam a mesma herança.

1840

O ano em que essa fila em particular chegou caminhando, 1.840, não tinha nada de especial, nada de especial também parecia ter os sofridos viajantes não contentes. Mas uma pessoa nessa fila é o herói desse capítulo, um descendente da Costa da Mina, da Nação Nagô Jeje, que hoje corresponde a República do Benim e descendente também de Portugal. Essa pessoa, de aproximadamente 10 anos de idade, mestiço, era alguém incomum nessa situação. Diferente da maioria dos outros em caminhada esse rapaz nasceu livre, não participou de guerras africanas e não tinha débitos com ninguém. Acredito até que foi amado por sua mãe. Sua mãe… Luiza Mahin, mulher africana livre, que como a maioria de nós seres humanos faria, lutou pela liberdade de seus pares.

Em 1.835, Mahin participou da Revolta do Malês e de 1.837 a 1.838 da Sabinada. Descoberta, foi forçada a fugir para evitar a prisão e eventualmente a morte. Sua fuga deixou nosso herói aos cuidados de seu pai. Homem branco, europeu, já carregando o que seria a época vergonha de ter um filho com uma negra, agora tinha que cuidar do filho de uma fugitiva. Viciado em apostas e com dívidas, decidiu que vender seu filho seria uma boa ideia. Boa ideia também teve seu comprador, de comprar escravos na Bahia e transportá-los para São Paulo. Uma questão de preço.

Honestamente, não consigo imaginar o que passava pela cabeça de nosso herói, mas o futuro foi brilhante.

Luís Gama

Depois de chegar a São Paulo, cidadezinha em transformação, transformado em escravo, assim, permaneceu por longos anos.

Então Nosso herói, Luís, foi forçado a trabalhar em diversas tarefas domésticas e agrícolas. como era eloquente, agradável e amigável, apesar das circunstâncias, fez amigos. Afinal não distinguia cor, raça, etnia…

Aprendeu a ler e escrever com a ajuda de amigos que fez, de um hóspede de seu “dono” e de africanos muçulmanos que conheceu.

Aos 18 anos, conseguiu alforria, ao provar que não nasceu escravo. Aprender a ler e escrever foram fundamentais para sua liberdade. Posteriormente, fundamental também foi o período em que frequentou como ouvinte a Faculdade de Direito do Largo São Francisco e adquiriu conhecimentos jurídicos que usaria numa luta maior que ele mesmo.

Livre

Agora livre, ou liberto, precisava de uma ocupação. As dificuldades eram muitas, liberto, mas sem casa, sem renda, sem expectativas, alistou-se na Força Pública da Província de São Paulo, uma espécie de Guarda Municipal, onde serviu por cerca de seis anos.

Viveu em alojamentos da guarda nesse período, desenrolado, evoluiu e chegou ao cargo de cabo de esquadra, posteriormente foi nomeado escrevente da Secretaria de Polícia. Nesse período aprofundou seus estudos e conhecimentos jurídicos e aproximou-se da literatura.

1850

Por volta de 1.850 já com algum conhecimento das Leis, Luís frequentou a Faculdade como ouvinte. Persistiu, mesmo sendo impossibilitado de se tornar oficialmente aluno e destacou-se como Rábula.

Nesse ponto da vida nosso herói, além da superação na vida pessoal, que já é algo incrível, realmente começa a fazer algo para ser lembrado, pensado, ensinado… Luís Gama começou a encontrar brechas nas Leis que geram direito à liberdade de centenas de escravos. Tendo acesso a documentos importantes, trabalhando na Secretaria de Polícia, entrou em contato com diversos escravos e ouviu suas histórias.

Em 1.856 Gama representaria Francisco, um escravo. Como argumento principal usa a Lei Feijó, de 1.831, que declarava livres todos os escravos vindos de fora do império. Apesar de ser uma Lei, geralmente, não respeitada, como muitas Leis no Brasil, Gama argumentou brilhantemente e conquistou a liberdade de Francisco!

A caminhada agora é outra

Libertar Francisco foi o primeiro marco na carreira de Luís Gama, posteriormente Gama foi colunista em vários jornais, articulista, denunciava os horrores da escravidão e defendia a igualdade racial.

Formou frentes de resistência pacifica e articulação política contra a escravidão com líderes abolicionistas como Antônio Bento e Rui Barbosa. Gama defendia que não havia justificativa moral ou legal para a escravidão, destacando também que a escravidão não criava direitos de propriedade legítimos.

Em sua carreira conseguiu a liberdade de mais de 500 pessoas. Um destaque merecido a questão Netto, maior ação coletiva de libertação de escravizados nas Américas.

Uma longa caminhada, mas agora não do litoral a São Paulo e sim de São Paulo ao litoral. Por ironia do destino, pelas linhas tortas, pela improbabilidade infinita… ou o que seja, Gama foi autor do maior processo de libertação de escravizados nas Américas, em Santos. Lugar que deve ter lhe trazido várias lembranças por nós inimagináveis.

Uma matéria de jornal e uma ação

Ao ler uma matéria em um jornal, soube de um fidalgo Português que faleceu, deixando em testamento a liberdade de todos os seus cativos. Imediatamente Gama fez um levantamento de quem seriam esses escravos e entrou com ação na justiça para fazer valer a vontade do falecido. Então Iniciou uma longa batalha judicial começa, várias instâncias, vitórias e derrotas, mas no fim a vitória, parcial. O tribunal de justiça decreta que todos os servos de Netto sejam libertados após 12 anos da lavratura do testamento. 217 Pessoas libertas de uma vez.

A luta de Luís Gama tem impacto significativo na história do Brasil, sua vida, sua carreira…

Carreira terminada em 1.882, apenas 6 anos antes da abolição da escravidão.

Abolição assinada pela Princesa Isabel.

Hoje, Gama é reconhecido como Patrono da Abolição da Escravidão no Brasil e seus documentos históricos foram reconhecidos como Patrimônio da Humanidade pela Unesco.

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